13 junho 2007

A propósito da nossa velhinha

Fim do banco
A idade vai comendo a vida.Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.O calendário vai-nos mudando o corpo.Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.Os velhos sabem de cor o chão.Como quem sabe que está quase a chegar lá.Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.Perde-se para ganhar.E assim foi. Emociona-me.Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.Em crianças, teriam-se sentado na outra ponta?E deixam-se estar.Respiram como podem. Os olhos já não procuram nada. Já viram tudo.Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.Em que pensam?Na morte? Os velhos não vivem. Deixam-se viver.Os filhos já tem a vida deles, não os querem.Tem de ir viajar e fazer compras para o jantar."O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho."Picaram o ponto, e para eles está feito.Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.E assim o fazem, no fim do telefonema.Ninguém os quer com as doenças cheias de idade.As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente.As pernas vão perdendo caminho.Os braços deixam de abraçar.O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco.Vai-se esquecendo de bater.E uma noite, sem avisar, desaprende.Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.Ocupam agora o banco todo.Do principio ao fim, todo ele é corpo.E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam.Não tem vagar para os guardar.Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar.
posted by Bruno Nogueira @
Segunda-feira, Junho 11, 20

2 Comments:

At junho 15, 2007, Blogger rinha said...

Engraçado o Bruno Nogueira ter este tipo de filosofia... Nunca imaginei! Mas são grandes verdades que diz. Nos últimos tempos tenho pensado exactamente como ele e feito um esforço grande (mesmo que talvez nem passe a mensagem) para não ser esse "filho" de que ele fala, o que telefona e segue a vida!
Não me quero culpar para sempre, um dia mais tarde, por ter perdido esta que é hoje a pior parte, mas que, quando a perdermos, até do pior vamos ter saudades.
O calendário é que empurra, é verdade, mas é mais fácil pensarmos que tudo é mau feitio que os empurrões dele....
A nossa velhinha é e será sempre um exemplo de vida, uma grande mulher, quer seja bem disposta, quer mal, quer erecta quer curvada, vou amá-la para sempre. Cada vez mais!

 
At junho 16, 2007, Blogger Nês said...

è tão bonito e ao mesmo tempo tão triste... :|
Tambem gosto muito dela! MTOO! ...daqueles que gostamos a sério, incondicionalmente, gostamos de qualquer maneira...

:)***

 

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